Gottman & Levenson (2000): crítica, defensividade, desprezo e "se fechar" antes do divórcio
- Referência
- Gottman JM, Levenson RW. The timing of divorce: Predicting when a couple will divorce over a 14-year period. Journal of Marriage and the Family 62(3):737–745, 2000. Texto completo no site do laboratório de Levenson: https://bpl.studentorg.berkeley.edu/docs/61-Timing%20of%20Divorce00.pdf Abrir o estudo (abre em outra aba)
- Verificação
- Lido no original em 20/10/2026.
- Por que fraca
- 79 casais de Bloomington recrutados por anúncio de jornal, só 9 divórcios precoces, e as taxas de acerto vêm de análise discriminante ajustada e avaliada na mesma amostra, sem validação cruzada.
- Amostra
- 79. 79 casais de Bloomington, Indiana, com dados completos, de 85 convidados ao laboratório entre cerca de 200 que responderam a anúncios de jornal em 1983. A seleção em duas etapas buscou cobrir toda a faixa de satisfação conjugal. Maridos com 30,8 anos em média e esposas com 28,9; casados havia 5 anos em média. Não é representativa da população.
- Desenho
- longitudinal (acompanha as mesmas pessoas no tempo)
- País e período
- EUA · 1983 (gravação no laboratório) a 14 anos depois; reavaliação em 1987
- Financiamento e conflito de interesse
- Bolsa MH35997 do National Institute of Mental Health aos autores e Research Scientist Award K2MH00257 ao primeiro autor. O artigo não declara outros vínculos.
O que mediu
Em 1983, 79 casais tiveram no laboratório duas conversas de 15 minutos gravadas em vídeo: uma sobre o dia, depois de 8 horas separados, e outra sobre um desacordo antigo do casal. Codificadores marcaram cada fala. Do sistema RCISS saem quatro códigos-resumo da conversa de conflito, que Gottman chamou de "Quatro Cavaleiros do Apocalipse": crítica, defensividade, desprezo e stonewalling (o ouvinte se retira da conversa). Do sistema SPAFF sai o afeto positivo e negativo. Os casais foram reavaliados em 1987 e acompanhados por 14 anos. Análises discriminantes testaram se essas medidas separavam quem se divorciou cedo (em média 7,4 anos após o casamento), quem se divorciou tarde (13,9 anos) e quem continuou casado.
É o artigo que testa os quatro cavaleiros pelo nome como preditores de divórcio. Os mesmos casais já tinham entrado em Gottman & Levenson (1992) e no livro What predicts divorce? (Gottman, 1994), onde o termo nasceu.
Achados
- Códigos-resumo do RCISS na conversa de conflitoOs quatro cavaleiros
"The four summary codes that emerge from the RCISS are criticism, defensiveness, contempt, and stonewalling."
Onde: Métodos, p. 740
- kappa = 0,72Concordância entre codificadores (RCISS)
"Using Cohen's kappa, reliability for all RCISS subcodes taken together was .72."
Onde: Métodos, p. 739
- 22 de 79 (27,8%)Casais divorciados em 14 anos
"Of the original set of 79 couples, 22 (27.8%) had divorced after 14 years."
Onde: Métodos, p. 739
- nove casais, em média 7,4 anos após o casamentoDivórcio precoce
"Nine couples divorced an average of 7.4 years following their marriage (SD = 1.7 years)."
Onde: Métodos, p. 739
- 13 casais, em média 13,9 anos após o casamentoDivórcio tardio
"13 couples divorced an average of 13.9 years following their marriage (SD = 5.1 years)."
Onde: Métodos, p. 739
- 83,5% classificados corretamente (correlação canônica 0,52)Divórcio precoce: satisfação + quatro cavaleiros
"The canonical correlation was .52, with X2 (12) = 22.36, p < .05, with correct classification 83.5%."
Onde: Resultados, p. 740
- só a satisfação da esposa diferiuDivórcio precoce: afeto positivo não separou os grupos
"These findings mean that stable and divorcing couples did not differ in positive affect, but they did differ in marital satisfaction Time 1."
Onde: Resultados, p. 740
- 83,5% de acertoDivórcio precoce: só os códigos de interação (quatro cavaleiros + saldo positivo menos negativo)
"the canonical correlation was .51, with X2 (10) = 21.26, p < .05, with 83.5% accuracy in prediction."
Onde: Resultados, p. 741
- Marido: defensividade, desprezo e stonewalling; esposa: crítica, desprezo e defensividadeCódigos que pesaram no divórcio precoce
"the negative codes that contributed to this prediction were the husband's defensiveness, contempt, and stonewalling, and the wife's criticism, contempt, and defensiveness."
Onde: Resultados, p. 742
- Nenhum código de interação foi significativo; a satisfação e a ideia de separação fizeram o trabalhoDivórcio tardio: quatro cavaleiros
"The univariate F ratios showed that the noninteractive variables did all the work in prediction."
Onde: Resultados, p. 741
- 75% de acertoDivórcio tardio: só o afeto positivo das duas conversas
"with 75.0% accuracy in prediction. This means that the positive SPAFF codes were able to predict later divorcing on their own."
Onde: Resultados, p. 742
- 95% de acertoSó entre os divorciados: precoce vs. tardio pelos quatro cavaleiros
"The canonical correlation was .85, with X2 (8) = 18.03, P = .0210, with a 95% accuracy in discrimination."
Onde: Resultados, p. 742
- média 0,12 vs. 0,02Desprezo do marido, precoce vs. tardio
"earlier divorcing couples' M = .12, later divorcing couples' M = .02"
Onde: Resultados, p. 742
- 93% de acertoModelo completo do resumo
"The model predicted divorce with 93% accuracy."
Onde: Resumo, p. 737
O resumo dá 93% para um modelo com satisfação, ideia de separação e afeto nas duas conversas. Os Resultados não trazem esse número: as taxas que aparecem lá são 83,5%, 88,5%, 86,2%, 75% e 95%.
Limitações
- Superajuste. Cada taxa de acerto vem de uma análise discriminante que escolhe os pesos olhando o desfecho e depois é avaliada nos mesmos casais. Não há validação cruzada nem amostra nova. O modelo de divórcio precoce usa 12 preditores para separar nove divórcios dos outros 70 casais. A comparação entre precoces e tardios usa 8 preditores em 20 casais. Com tão poucos casos, uma equação ajustada acerta quase tudo dentro da amostra e bem menos fora dela. Heyman & Slep (2001, Journal of Marriage and Family 63:473–479, https://doi.org/10.1111/j.1741-3737.2001.00473.x) mostraram isso com dados de uma pesquisa nacional dos EUA: uma equação que acertava 90% na metade em que foi construída, com 65% de acerto entre os casais que apontava como divorciados, caiu para 29% de acerto entre esses casais na outra metade, e para 21% com a taxa real de divórcio. O alvo deles era Gottman, Coan, Carrere & Swanson (1998), dos mesmos autores e com o mesmo método.
- Heyman & Slep também lembram que a taxa de acerto depende de quantos casais se divorciam na amostra. Lá fora a proporção é outra, e "93% de acerto" não diz quantas vezes um alerta de divórcio estaria certo para um casal qualquer.
- Stanley, Bradbury & Markman (2000, Journal of Marriage and the Family 62:256–264) criticaram a passagem desses achados para conselhos a casais, com Gottman et al. (1998) como exemplo. Não lemos esse texto; o resumo vem de Heyman & Slep, que citam também a resposta de Gottman et al. (2000).
- Amostra pequena e local: 79 casais de uma cidade de Indiana, recrutados por anúncio, casados em média havia 5 anos quando entraram. O desenho em duas etapas sobrerrepresenta casais muito satisfeitos e muito insatisfeitos.
- Os quatro cavaleiros só previram o divórcio precoce. Para o divórcio tardio, o que contou foi a falta de afeto positivo, não a presença dos quatro.
- Nem os quatro pesaram nos dois cônjuges: crítica do marido e stonewalling da esposa não foram significativos no divórcio precoce.
- O texto traz dois valores para o F da crítica da esposa no mesmo teste (4,63 na p. 741 e 4,03 na p. 742).
- As conversas sempre vieram na mesma ordem, sem contrabalancear. Os autores admitem que não sabem se os resultados se mantêm com outra ordem.
- É um estudo de casais já casados, observados em laboratório. Não testa se evitar esses comportamentos muda o desfecho, nem diz nada sobre como escolher alguém antes de a relação começar.
Citada em
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Como ler
- lido no original
- os números foram conferidos no texto completo do estudo.
- parcial
- conferido no resumo ou na página oficial, não no texto completo.
- não verificado
- ainda não conferido na fonte. Não sustenta nenhum Guia.
- forte
- amostra grande e representativa, replicado ou meta-análise.
- moderada
- bom desenho, mas uma amostra só, um retrato num momento ou um viés conhecido.
- fraca
- amostra pequena, não representativa, comercial ou com conflito de interesse.